segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Febre e convulsão
            O recrudescimento das doenças infecciosas no Brasil é uma realidade preocupante para os médicos em geral e a febre, na maioria das vezes decorrente deste estado, é mal compreendida pelos médicos, como também por aqueles que necessitam de seus cuidados. Pelos primeiros, porque, na tentativa de curá-la, utilizam-se de antitérmicos prejudiciais à saúde. Pelos pacientes, porque são vítimas do tradicional – e errôneo – conceito de que a febre é uma manifestação maléfica do organismo, sendo necessário combatê-la a qualquer preço.
Um estudo mais profundo demonstra que ambas as posturas estão equivocadas. Através desses estudos compreende-se que a febre é uma das principais defesas do organismo, na verdade, uma proteção contra um agente desencadeante, uma perturbação psicológica ou física. Por isso, a utilização de antitérmicos, banhos frios ou outras terapias na tentativa de eliminar a febre são desaconselháveis, porque deixam o organismo desprotegido.

            Reação dos mecanismos defensivos do organismo: Febre
Nosso organismo como um todo é mantido em harmoniosa atividade vital pela lei básica de conservação, que se estabelece através dos mecanismos de auto-regulação. Quando este organismo se vê agredido por um agente desencadeante qualquer, surgem nele reações, que trazem um caráter eminentemente individual. Quando o fator desencadeante é um agente infeccioso produzindo uma interação agente-hospedeiro-meio, que se instala no hospedeiro dado o desequilíbrio da energia vital deste, a reação dos mecanismos defensivos do organismo se traduz por três fenômenos básicos:
1)    Febre
2)    Alterações funcionais e da estrutura dos órgãos
3)    Formação de anticorpos
Analisemos o fenômeno febre. A febre consiste num aumento da temperatura do nosso corpo pela alteração funcional do centro termo-regulador do hipotálamo (pequena região anatômica da base do cérebro). Cada animal tem uma temperatura corporal que lhe é própria, sendo constante nos mamíferos, entre os quais está o homem, qualquer que seja a temperatura ambiental. Para que esta temperatura se mantenha, são necessárias três condições: a produção contínua de calor (termogênese), através da queima de glicose (açúcar), ácidos graxos e aminoácidos (metabolismo), possibilidade de eliminação do calor não necessário ao organismo e mecanismos reguladores das duas condições anteriores.
É através dos estímulos emanados do hipotálamo que a regulação da produção contínua de calor se faz; qualquer condição que altere os mecanismos reguladores da termogênese determina redução ou aumento da temperatura corporal, resultando respectivamente a hipotermia e a hipertermia. A hipotermia é o estabelecimento de uma temperatura corporal abaixo do valor considerado normal, isto é, 36,5 ºC medido na axila. A hipertermia pode ser febril e não-febril. A não-febril consiste apenas em elevação da temperatura corporal sem outras alterações, de modo que o indivíduo não sente suas manifestações, como acontece por exemplo na insolação, que pode naturalmente servir de fator desencadeante para uma série de sintomas mórbidos posteriores dependendo do momento vital do indivíduo.
A febre ou hipertermia febril (pirexia) é um complexo conjunto de alterações funcionais no qual toma parte o sistema nervoso, diversos aparelhos e modificações do metabolismo. Nas moléstias infecciosas a febre pode se manifestar basicamente em três períodos:
a)    Período inicial ou estado do calafrio: pode apresentar-se de vários modos, sempre com caráter absolutamente individual: em certos casos a temperatura sobe bruscamente e rapidamente; em outros casos, essa ascensão é lenta atingindo o máximo em alguns dias. O início pode ser assinalado por arrepios de frio ou calafrios, que são tanto mais intensos quanto mais rápida foi a subida da temperatura.
b)    Período do calor: o período de calor caracteriza-se pelo ponto mais alto atingido pela temperatura; este período pode ser contínuo durante todo o dia ou vários dias e pode variar no mesmo dia ou em dias sucessivos, resultando os diversos tipos de febre.
c)    Período da sudorese (transpiração): constitui a queda da temperatura, que se sucede ao período do calor, resolvendo-se em algumas horas ou lentamente durante alguns dias. Este período representa o esforço do mecanismo termorregulador a reconduzir a temperatura corporal ao normal pois a evaporação do suor baixa a temperatura.
Geralmente, após ter-se normalizado a temperatura e o dente estar em franca convalescência há uma nova ascensão da temperatura que dura um dia ou no máximo dois, que é conhecido pelo nome de febre póstuma, por que se manifesta depois que “morreu” a moléstia. Este pico de febre é de grande importância para o organismo por que corresponde à instalação da imunidade.
Segundo o grande patologista Prof. Dr. Walter Edgard Maffei afirma em seu livro “Os Fundamentos da Medicina”, - “muito se tem discutido sobre esse assunto, de modo que, segundo uns, a febre representaria o esforço do organismo em criar condições impróprias ao agente e, portanto, um elemento útil no combate à infecção; segundo outros pelo contrário, a febre seria um sintoma prejudicial ao organismo, citando as diversas alterações que ela pode determinar e os perigos dela decorrentes, preconizando para isso os medicamentos antipiréticos, atribuindo-lhes um efeito benéfico nos doentes e desaparecimento dos sintomas mais perigosos. Entretanto a observação dos fatos da clínica diária e as estatísticas sobre a mortalidade das moléstias infecciosas tratadas com e sem antipiréticos não mostraram qualquer diferença significativa em favor do tratamento com os antipiréticos”.
A observação imparcial, científica, mostra que nos indivíduos desnutridos, alcoolistas, as moléstias infecciosas evoluem sem febre e até com hipotermia e, por isso, são sempre fatais; são também graves as moléstias que, em certos indivíduos, evoluem com febre baixa quando habitualmente deveriam ter febre elevada, demonstrando a precariedade dos seus mecanismos defensivos. Por isso mesmo, diversas moléstias são tratadas, na medicina alopática, provocando-se febre artificial pela injeção de substâncias dotadas dessa propriedade.
“Convulsão febril”
Do mesmo modo, se o indivíduo tiver um terreno epilético heterozigoto a infecção poderá ser a causa desencadeante das crises convulsivas, sempre absolutamente benéficas, fato este mais comum em crianças e erroneamente rotuladas de convulsões febris.
A convulsão, como a febre, é uma reação do organismo na tentativa do reequilíbrio, e como deve ser respeitada. Geralmente, o quadro que se forma durante a convulsão costuma provocar receio nas pessoas, por isso manter a calma é a primeira medida que se deve tomar para melhor auxiliar as pessoas que a têm. Basta tomarmos os seguintes cuidados: virar o paciente de bruços ou de lado, verificar se não existe nada lhe apertando, tomar cuidado com a cabeça quando ele estiver se debatendo e, posteriormente, procurar um médico.
A febre em si, portanto, representa um complexo de alterações do organismo no sentido de desencadear o processo de cura, sendo que a atenção deve estar voltada para a totalidade dos sintomas mentais, locais e gerais do indivíduo, sendo que o abaixamento puro e simples da temperatura deve ser uma consequência necessária e suficiente do retorno do organismo como um todo à harmonia vital.
Artigo retirado da revista “Similia” nº 63, verão/87.


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