Febre
e convulsão
O recrudescimento das doenças infecciosas no Brasil é uma
realidade preocupante para os médicos em geral e a febre, na maioria das vezes
decorrente deste estado, é mal compreendida pelos médicos, como também por
aqueles que necessitam de seus cuidados. Pelos primeiros, porque, na tentativa
de curá-la, utilizam-se de antitérmicos prejudiciais à saúde. Pelos pacientes,
porque são vítimas do tradicional – e errôneo – conceito de que a febre é uma
manifestação maléfica do organismo, sendo necessário combatê-la a qualquer
preço.
Um
estudo mais profundo demonstra que ambas as posturas estão equivocadas. Através
desses estudos compreende-se que a febre é uma das principais defesas do
organismo, na verdade, uma proteção contra um agente desencadeante, uma
perturbação psicológica ou física. Por isso, a utilização de antitérmicos,
banhos frios ou outras terapias na tentativa de eliminar a febre são
desaconselháveis, porque deixam o organismo desprotegido.
Reação dos mecanismos defensivos do
organismo: Febre
Nosso
organismo como um todo é mantido em harmoniosa atividade vital pela lei básica
de conservação, que se estabelece através dos mecanismos de auto-regulação.
Quando este organismo se vê agredido por um agente desencadeante qualquer,
surgem nele reações, que trazem um caráter eminentemente individual. Quando o
fator desencadeante é um agente infeccioso produzindo uma interação
agente-hospedeiro-meio, que se instala no hospedeiro dado o desequilíbrio da
energia vital deste, a reação dos mecanismos defensivos do organismo se traduz
por três fenômenos básicos:
1) Febre
2) Alterações
funcionais e da estrutura dos órgãos
3) Formação
de anticorpos
Analisemos
o fenômeno febre. A febre consiste num aumento da temperatura do nosso corpo
pela alteração funcional do centro termo-regulador do hipotálamo (pequena
região anatômica da base do cérebro). Cada animal tem uma temperatura corporal
que lhe é própria, sendo constante nos mamíferos, entre os quais está o homem,
qualquer que seja a temperatura ambiental. Para que esta temperatura se
mantenha, são necessárias três condições: a produção contínua de calor
(termogênese), através da queima de glicose (açúcar), ácidos graxos e
aminoácidos (metabolismo), possibilidade de eliminação do calor não necessário
ao organismo e mecanismos reguladores das duas condições anteriores.
É através
dos estímulos emanados do hipotálamo que a regulação da produção contínua de
calor se faz; qualquer condição que altere os mecanismos reguladores da termogênese
determina redução ou aumento da temperatura corporal, resultando
respectivamente a hipotermia e a hipertermia. A hipotermia é o estabelecimento
de uma temperatura corporal abaixo do valor considerado normal, isto é, 36,5 ºC
medido na axila. A hipertermia pode ser febril e não-febril. A não-febril
consiste apenas em elevação da temperatura corporal sem outras alterações, de
modo que o indivíduo não sente suas manifestações, como acontece por exemplo na
insolação, que pode naturalmente servir de fator desencadeante para uma série
de sintomas mórbidos posteriores dependendo do momento vital do indivíduo.
A febre
ou hipertermia febril (pirexia) é um complexo conjunto de alterações funcionais
no qual toma parte o sistema nervoso, diversos aparelhos e modificações do
metabolismo. Nas moléstias infecciosas a febre pode se manifestar basicamente
em três períodos:
a) Período
inicial ou estado do calafrio: pode apresentar-se de vários modos, sempre com
caráter absolutamente individual: em certos casos a temperatura sobe
bruscamente e rapidamente; em outros casos, essa ascensão é lenta atingindo o
máximo em alguns dias. O início pode ser assinalado por arrepios de frio ou
calafrios, que são tanto mais intensos quanto mais rápida foi a subida da
temperatura.
b) Período
do calor: o período de calor caracteriza-se pelo ponto mais alto atingido pela
temperatura; este período pode ser contínuo durante todo o dia ou vários dias e
pode variar no mesmo dia ou em dias sucessivos, resultando os diversos tipos de
febre.
c) Período
da sudorese (transpiração): constitui a queda da temperatura, que se sucede ao
período do calor, resolvendo-se em algumas horas ou lentamente durante alguns
dias. Este período representa o esforço do mecanismo termorregulador a
reconduzir a temperatura corporal ao normal pois a evaporação do suor baixa a
temperatura.
Geralmente,
após ter-se normalizado a temperatura e o dente estar em franca convalescência há
uma nova ascensão da temperatura que dura um dia ou no máximo dois, que é
conhecido pelo nome de febre póstuma,
por que se manifesta depois que “morreu” a moléstia. Este pico de febre é de grande importância para o organismo por que
corresponde à instalação da imunidade.
Segundo
o grande patologista Prof. Dr. Walter Edgard Maffei afirma em seu livro “Os
Fundamentos da Medicina”, - “muito se tem discutido sobre esse assunto, de modo
que, segundo uns, a febre representaria o esforço do organismo em criar
condições impróprias ao agente e, portanto, um elemento útil no combate à
infecção; segundo outros pelo contrário, a febre seria um sintoma prejudicial
ao organismo, citando as diversas alterações que ela pode determinar e os perigos
dela decorrentes, preconizando para isso os medicamentos antipiréticos,
atribuindo-lhes um efeito benéfico nos doentes e desaparecimento dos sintomas
mais perigosos. Entretanto a observação dos
fatos da clínica diária e as estatísticas sobre a mortalidade das moléstias infecciosas
tratadas com e sem antipiréticos não mostraram qualquer diferença significativa
em favor do tratamento com os antipiréticos”.
A observação
imparcial, científica, mostra que nos indivíduos desnutridos, alcoolistas, as
moléstias infecciosas evoluem sem febre e até com hipotermia e, por isso, são sempre
fatais; são também graves as moléstias que, em certos indivíduos, evoluem com
febre baixa quando habitualmente deveriam ter febre elevada, demonstrando a
precariedade dos seus mecanismos defensivos. Por isso mesmo, diversas moléstias
são tratadas, na medicina alopática, provocando-se febre artificial pela
injeção de substâncias dotadas dessa propriedade.
“Convulsão febril”
Do mesmo
modo, se o indivíduo tiver um terreno epilético heterozigoto a infecção poderá
ser a causa desencadeante das crises convulsivas, sempre absolutamente
benéficas, fato este mais comum em crianças e erroneamente rotuladas de convulsões febris.
A convulsão,
como a febre, é uma reação do organismo na tentativa do reequilíbrio, e como
deve ser respeitada. Geralmente, o quadro que se forma durante a convulsão costuma
provocar receio nas pessoas, por isso manter a calma é a primeira medida que se
deve tomar para melhor auxiliar as pessoas que a têm. Basta tomarmos os
seguintes cuidados: virar o paciente de bruços ou de lado, verificar se não existe
nada lhe apertando, tomar cuidado com a cabeça quando ele estiver se debatendo
e, posteriormente, procurar um médico.
A febre
em si, portanto, representa um complexo de alterações do organismo no sentido
de desencadear o processo de cura, sendo que a atenção deve estar voltada para
a totalidade dos sintomas mentais, locais e gerais do indivíduo, sendo que o
abaixamento puro e simples da temperatura deve ser uma consequência necessária
e suficiente do retorno do organismo como um todo à harmonia vital.
Artigo
retirado da revista “Similia” nº 63, verão/87.
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