terça-feira, 23 de setembro de 2014

Interessante publicação da Revista de Medicina da USP, sobre o princípio de cura homeopático - princípio da semelhança, de autoria do prof. Marcus Zulian Teixeira. 

http://www.revistas.usp.br/revistadc/article/viewFile/79999/83919


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A constituição mórbida
Parte II

Na realidade, a diátese fundamental, que não só foi originariamente o terreno predisponente para a implantação da sífilis e da sicosis, mas também a expressão da atividade exonerativa da energia vital, é a psora, que representa a primeira e única afecção crônica do ser humano.  Sua característica principal é sua capacidade em produzir reações de choque, como as enfermidades agudas, que podem ser desencadeadas por uma causa excitante ou alérgica de tipo cósmico, microbiano ou emocional. Sempre é a psora que reaciona paroxisticamente, exonerando os processos mórbidos do centro para a periferia, de acordo com a lei de cura.
(...) A possibilidade de mudanças estruturais patológicas resultaria de uma fixação do fenômeno alérgico reativo em órgãos de choque que correspondem ao gênio mórbido de cada diátese e obedeceria a tendência destrutiva da sífilis: úlceras, necroses, ou proliferativa da sicosis: verrugas, pólipos, excrescências, supurações, neoplasias e tumores.
A psora é puramente funcional, reativa, com manifestações congestivas, paroxísticas, neurovegetativas, álgicas, espasmódicas e pruriginosas.
Como exaltação do fenômeno primário e do primeiro movimento de defesa orgânica, está a expressão da vitalidade e da capacidade reacional essencial para a preservação da vida. O homem deve saber que nunca poderá curar-se totalmente da psora, que pode somente reduzi-la a um estado de silêncio ou psora latente, por que a psora é conflito, inquietude, desassossego, estado de alarme e alerta, que promove a atividade vital, e este estado de alarme, hipersensibilidade e conflito é característico do ser humano, sempre pronto para mostrar a ansiedade oculta.
Na sífilis, não há conflito sem exacerbação da agressividade destrutiva, e na sicosis, exaltação pervertida do instinto sexual. A ansiedade ou medo nos seus diferentes aspectos são a primeira manifestação do conflito entre o homem e seu meio, e o primeiro sintoma da enfermidade no ser humano, traduzido por Hahnemann, em termos de um prurido mental, que se expressa exonerativamente pelo prurido na pele, elemento fundamental da psora.
Na realidade, a diátese ou discrasia fundamental e única é a psora, que não é uma enfermidade e sim uma atividade reativa anormal com a qual o organismo responde à agressão suscitante de qualquer índole. Não pode haver outra forma de reação mórbida além da que corresponde à atividade fisiológica do catabolismo, antagonista do anabolismo, que incorpora os elementos constitutivos do indivíduo, tanto no aspecto físico como psicológico.  O catabolismo é eliminação, expulsão, drenagem, exoneração dos catabólitos, seguindo a lei excêntrica de cura, que tanto vale no plano psíquico como físico, com a eliminação de tudo o que perturba a mente, nessa necessidade de expressar-se, de expandir-se, exteriorizar-se, que tem a mente. A ansiedade, que constitui a perturbação primeira de toda patologia, não pode ser suportada pela mente, pelo eu, que necessita expulsá-la, derivá-la, expressá-la, seja simplesmente através de uma conversa paliativa, seja projetando-a sobre o organismo que converte a enfermidade ansiosa em enfermidade orgânica.
A sífilis e a sicosis são diáteses patológicas, por que causam uma modificação negativa à capacidade exonerativa da psora, um dinamismo de anergia ou perversão do processo alérgico representado pela psora.
Os miasmas não são enfermidades, e sim alterações na dinâmica vital.
Qual a necessidade de formular clinicamente a existência do terreno miasmático ou diatésico?
Tem importância para a clínica diária a formulação conceitual do terreno miasmático ou constitucional que subexiste de forma latente à enfermidade atual?
Não bastaria, para curar o paciente, aplicar os medicamentos que sucessivamente correspondam às síndromes que o mesmo vai apresentando durante o tratamento? (...).
Como a finalidade do médico é curar o paciente, como Hahnemann descreveu no 3º parágrafo do Organon, que impõe a necessidade de que o médico saiba o que é curável em cada paciente em particular, e para saber o que se deve curar em cada paciente, é necessário explicar os sintomas, compreender a gênese dos sinais psicológicos, fisiológicos e patológicos que o paciente apresenta, estudando a etiologia do processo atual.
A medicina deve ser eminentemente etiológica, do contrário não será mais que um mero naturalismo mecânico ao serviço de uma clínica desumanizada.
Nesse sentido, a mera aplicação da lei da semelhança não basta para a eleção do remédio.
É necessário compreender o paciente na totalidade da sua história e compreender a clínica homeopática derivada, não da patologia, e sim das patogenesias que transcrevem uma alteração dinâmica do organismo como uma unidade funcional.
Se o paciente apresenta um quadro atual de reumatismo e com o medicamento correspondente, desaparecem os sintomas, teremos direito a pensar que a enfermidade foi curada.
Porém se o quadro reaparece, os sintomas voltam depois de um tempo e é necessário dar outra dose do medicamento, continuando assim repetindo periodicamente o remédio na mesma dose, aumentando-a quando não apresenta resultado, até que chegamos a um limite, no qual o medicamento já não atua mais. Outras vezes o paciente volta sucessivamente nas consultas, cada vez com sintomas novos, mudados, que podem ser sintomas já experimentados pelo paciente anteriormente, ou expressões do processo mórbido em progressão: cólicas intestinais, enxaquecas, resfriados em repetição, crises de alergia, fenômenos eruptivos, etc.
Que significado tem esse retorno dos sintomas depois da aplicação rigorosa da lei terapêutica da semelhança ou a aparição de quadros de afecções diversas subsequentes à desaparição da primeira? Onde estava a enfermidade nos períodos intercalares entre as diversas manifestações sintomáticas e nos momentos em que o paciente sente-se melhor, sem sintomas, até que estes retornaram e exigiram novas doses do remédio?
É evidente que não havendo patologia ou não correspondendo os sintomas à lesão patológica que o paciente possa ter, a enfermidade que se reduz a silêncio, para ressurgir periodicamente, não pode ser outra coisa além de uma perturbação dinâmica, uma alteração silenciada momentaneamente da  capacidade reativa do organismo, um organismo que quer cumprir a função essencial de todo organismo, a liberação de energia, seja através da produção de calor de toda a máquina e a exoneração dos catabólitos combustionados ou como a liberação da energia instinto-emocional no processo expansivo da sua personalidade, e que nesta primordial função  autocurativa e inerente à sua própria natureza, tenha se hipersensibilizado no estado de susceptibilidade que mantém um sistema de reflexos condicionados, o que fez Hahnemann dizer que a enfermidade crônica não se cura sozinha, é preciso romper o círculo vicioso dos reflexos condicionados organizados em sistema reiterativo.
Com tudo isso, reafirma-se que a psora, exaltação anormal, hiperérgica da capacidade reativa do organismo em sua função primordial de repelir do centro até a periferia, da mente até os envoltórios tudo o que, do exterior ao interior, atenta contra o equilíbrio homeostático do seu meio interno, desde a ansiedade até a infecção exógena, é a enfermidade essencial e única do ser humano, a condição dinâmica de perturbação, que o predispõe para todas as demais enfermidades e que toda atividade reativa do tipo paroxístico, acessional, agudo, exonerativo, é a expressão brusca, estalante, da reação psórica representada como um paradigma biológico, pelo paciente que externaliza a ansiedade pruriginosa e inquietante da sua mente até a superfície do seu corpo convertida em prurido.

(Final da tradução do capítulo "La Constitucion morbida" de Tomás Paschero, por Alice Sanchez Cupolillo)

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A constituição mórbida
Parte I

            Na profundidade de toda patologia, como gênese de todos os processos fisico-químicos que criam todas as mudanças estruturais dos tecidos, existe um distúrbio dos mecanismos normais da defesa imunitária que tem como objetivo manter a vida, tanto na saúde quanto na doença. Analisando em seu aspecto fundamental e primário, estes mecanismos de defesa que o ser humano põe em jogo para ajustar-se adaptativamente à vida, observamos que a função essencial do organismo é a liberação de sua energia, que na psicologia é a prospecção do eu, a necessidade de expressar-se, expandir-se, projetar-se, e no plano orgânico, a tendência a exonerar os produtos metabólicos desde os centros de atividade vital, até os órgãos de eliminação ou drenagem encarregados de exonerar os dejetos mórbidos da atividade vital.
            Toda transgressão no curso normal desta trajetória até a periferia, regida pela fundamental lei de cura, implica uma inibição patógena, ou supressão, que gera um estado diatésico de susceptibilidade alérgica, que Hahnemann chamou de Psora.
            Originalmente na concepção hahnemanniana, a psora resultou da supressão de uma manifestação cutânea exonerativa pruriginosa , que dá lugar uma perturbação interna pelo retrocesso da energia vital eferente. A energia vital retropulsada, contrariada em sua trajetória excêntrica, é internalizada e convertida em tensão que suscetibiliza o indivíduo, estabelecendo uma forma de reatividade hiperérgica, paroxística, aguda, que eclode em episódios, nos quais se mostra uma brusca exaltação das defesas orgânicas reguladas pela lei de cura. Toda a patologia funcional baseia-se no fenômeno fisiológico da susceptibilidade que não é mais que a exaltação do processo normal da reação de defesa ou de alarme frente ao agente estressante que pode ser de origem externa ou interna. 
O que realmente constitui um sintoma é aquele que tem caráter de exagero e rompe a harmonia com os demais elementos da reatividade psico-orgânica. Sentir frio é normal, porém sentir frio desproporcionalmente aos demais elementos psicofísicos condicionados pelo ambiente, em correlação com o meio interno, é anormal.
A susceptibilidade (hipersensibilidade) ou capacidade de registrar os estímulos externos ou as emoções com especial acuidade, que provoca uma reação desproporcional, é o que constitui o problema atual da alergia e o que fundamenta o fenômeno essencial da psora, que Hahnemann percebeu antes de todas as concepções de imunidade e anafilaxia.
A alopatia não perdoa Hahnemann por ter confundido a sarna com a psora e não pôde compreender que ele referia-se ao terreno que torna possível o desenvolvimento do ácaro. Da mesma maneira pode ser picada pelas pulgas ou molestadas pelas moscas as pessoas sensíveis que geralmente apresentam o quadro de Suphur. A psora é então um terreno, uma diátese, uma discrasia constitucional, referida a uma suscetibilidade alérgica e resultado de antigas repressões da corrente eferente que normalmente cursa a corrente vital, com o que essa diátese passe a ser a consequência da primeira e fundamental transgressão à lei natural de cura que rege toda a atividade biológica e tem como objetivo manter constante a composição do meio interno.
Os sintomas que expressam este estado diatésico constitucional são do tipo acessional, crítico, com agudização crítica dos fenômenos de defesa, brusca vascularização congestiva, aumento da permeabilidade dos capilares, espasmos dos músculos lisos, crises exudativas da pele e mucosas, ou seja, todas as manifestações paroxísticas e agudas.
Quando estes sintomas não se manifestam, subsiste um estado latente, que a patologia alopática não concebe, e que só pode ser conhecido pelas patogenesias medicamentosas, sento as mais representativas as de Sulphur e Psorinum.
É importante ressaltar que a psora resulta primariamente da supressão das manifestações da pele, órgão eliminador por excelência e primitivamente resultante, segundo Hahnemann, da supressão pelo prurido. (...) A psora não pode existir sem a supressão da corrente eferente exonerativa que postula a lei de cura de Hering.
Quando a pele não cumpre seu papel biológico, ela é suprida pelos intestinos, que exercem uma função suplementar de eliminação. Os sintomas intestinais da psora latente equivalentes às erupções pruriginosas da pele, dão lugar a todas as síndromes das quais a presença de parasitos constitui um dos mais típicos e frequentes, desde amebas até tênias e áscaris.
(...) Assim, recapitulando tudo o que foi dito, poderíamos dizer que a excitação primária que constitui a reação de alarme do organismo frente à agressão externa, corresponderia, em sua perturbação, à psora, que passa assim a ser entendida como um estado de perturbação dinâmica permanentemente condicionada pela excitação supernormal ou hiperérgica aos estímulos condicionantes.
Este estado diatésico (...) que seria produzido por infecções repetidas do passado ancestral, colocaria o organismo em condições de receptividade ou susceptibilidade para que sucessivas infecções produzissem dois estados no organismo: um no sentido da atividade inibidora da energia vital, e outro da atividade alteradora das funções orgânicas (...). Assim explica-se a gênese dinâmica de toda patologia em função de um distúrbio dos mecanismos normais da defesa orgânica imunitária, criando-se primeiramente um estado diatésico de hiperexcitação alérgica que faria possível a impressão, na força vital assim perturbada, de uma tendência inibidora, de anergia, ou falta de reação imunitária que levaria à destruição e à necrose dos tecidos  - tendência determinada pela sífilis – e uma direção oposta, compensadora, aumentativa, de proliferação degenerativa, com formação de tumores, pólipos, verrugas e neoplasias, provocada pela parte da sycosis, diátese correspondente à blenorragia ou à incorporação de proteínas estranhas.
(Tradução feita por Alice Sanchez Cupolillo do capítulo "La constitucion morbida" do livro "Homeopatia" de Tomás Paschero, editorial "El Ateneo").


Aguardem a segunda parte da tradução, obrigada! 
 - Alice S Cupolillo