A
constituição mórbida
Parte II
Na
realidade, a diátese fundamental, que não só foi originariamente o terreno
predisponente para a implantação da sífilis e da sicosis, mas também a
expressão da atividade exonerativa da energia vital, é a psora, que representa
a primeira e única afecção crônica do ser humano. Sua característica principal é sua capacidade
em produzir reações de choque, como as enfermidades agudas, que podem ser
desencadeadas por uma causa excitante ou alérgica de tipo cósmico, microbiano
ou emocional. Sempre é a psora que reaciona paroxisticamente, exonerando os
processos mórbidos do centro para a periferia, de acordo com a lei de cura.
(...)
A possibilidade de mudanças estruturais patológicas resultaria de uma fixação
do fenômeno alérgico reativo em órgãos de choque que correspondem ao gênio
mórbido de cada diátese e obedeceria a tendência destrutiva da sífilis:
úlceras, necroses, ou proliferativa da sicosis: verrugas, pólipos, excrescências,
supurações, neoplasias e tumores.
A
psora é puramente funcional, reativa, com manifestações congestivas, paroxísticas,
neurovegetativas, álgicas, espasmódicas e pruriginosas.
Como
exaltação do fenômeno primário e do primeiro movimento de defesa orgânica, está
a expressão da vitalidade e da capacidade reacional essencial para a
preservação da vida. O homem deve saber que nunca poderá curar-se totalmente da
psora, que pode somente reduzi-la a um estado de silêncio ou psora latente, por
que a psora é conflito, inquietude, desassossego, estado de alarme e alerta,
que promove a atividade vital, e este estado de alarme, hipersensibilidade e
conflito é característico do ser humano, sempre pronto para mostrar a ansiedade
oculta.
Na
sífilis, não há conflito sem exacerbação da agressividade destrutiva, e na
sicosis, exaltação pervertida do instinto sexual. A ansiedade ou medo nos seus
diferentes aspectos são a primeira manifestação do conflito entre o homem e seu
meio, e o primeiro sintoma da enfermidade no ser humano, traduzido por
Hahnemann, em termos de um prurido mental, que se expressa exonerativamente
pelo prurido na pele, elemento fundamental da psora.
Na
realidade, a diátese ou discrasia fundamental e única é a psora, que não é uma
enfermidade e sim uma atividade reativa anormal com a qual o organismo responde
à agressão suscitante de qualquer índole. Não pode haver outra forma de reação
mórbida além da que corresponde à atividade fisiológica do catabolismo,
antagonista do anabolismo, que incorpora os elementos constitutivos do
indivíduo, tanto no aspecto físico como psicológico. O catabolismo é eliminação, expulsão, drenagem,
exoneração dos catabólitos, seguindo a lei excêntrica de cura, que tanto vale
no plano psíquico como físico, com a eliminação de tudo o que perturba a mente,
nessa necessidade de expressar-se, de expandir-se, exteriorizar-se, que tem a
mente. A ansiedade, que constitui a perturbação primeira de toda patologia, não
pode ser suportada pela mente, pelo eu, que necessita expulsá-la, derivá-la,
expressá-la, seja simplesmente através de uma conversa paliativa, seja
projetando-a sobre o organismo que converte a enfermidade ansiosa em
enfermidade orgânica.
A
sífilis e a sicosis são diáteses patológicas, por que causam uma modificação
negativa à capacidade exonerativa da psora, um dinamismo de anergia ou
perversão do processo alérgico representado pela psora.
Os
miasmas não são enfermidades, e sim alterações na dinâmica vital.
Qual
a necessidade de formular clinicamente a existência do terreno miasmático ou
diatésico?
Tem
importância para a clínica diária a formulação conceitual do terreno miasmático
ou constitucional que subexiste de forma latente à enfermidade atual?
Não
bastaria, para curar o paciente, aplicar os medicamentos que sucessivamente
correspondam às síndromes que o mesmo vai apresentando durante o tratamento?
(...).
Como
a finalidade do médico é curar o paciente, como Hahnemann descreveu no 3º
parágrafo do Organon, que impõe a necessidade de que o médico saiba o que é
curável em cada paciente em particular, e para saber o que se deve curar em cada
paciente, é necessário explicar os sintomas, compreender a gênese dos sinais
psicológicos, fisiológicos e patológicos que o paciente apresenta, estudando a
etiologia do processo atual.
A medicina deve ser
eminentemente etiológica, do contrário não será mais que um mero naturalismo
mecânico ao serviço de uma clínica desumanizada.
Nesse
sentido, a mera aplicação da lei da semelhança não basta para a eleção do
remédio.
É
necessário compreender o paciente na totalidade da sua história e compreender a
clínica homeopática derivada, não da patologia, e sim das patogenesias que
transcrevem uma alteração dinâmica do organismo como uma unidade funcional.
Se
o paciente apresenta um quadro atual de reumatismo e com o medicamento
correspondente, desaparecem os sintomas, teremos direito a pensar que a
enfermidade foi curada.
Porém
se o quadro reaparece, os sintomas voltam depois de um tempo e é necessário dar
outra dose do medicamento, continuando assim repetindo periodicamente o remédio
na mesma dose, aumentando-a quando não apresenta resultado, até que chegamos a
um limite, no qual o medicamento já não atua mais. Outras vezes o paciente
volta sucessivamente nas consultas, cada vez com sintomas novos, mudados, que
podem ser sintomas já experimentados pelo paciente anteriormente, ou expressões
do processo mórbido em progressão: cólicas intestinais, enxaquecas, resfriados
em repetição, crises de alergia, fenômenos eruptivos, etc.
Que
significado tem esse retorno dos sintomas depois da aplicação rigorosa da lei
terapêutica da semelhança ou a aparição de quadros de afecções diversas
subsequentes à desaparição da primeira? Onde estava a enfermidade nos períodos
intercalares entre as diversas manifestações sintomáticas e nos momentos em que
o paciente sente-se melhor, sem sintomas, até que estes retornaram e exigiram
novas doses do remédio?
É
evidente que não havendo patologia ou não correspondendo os sintomas à lesão
patológica que o paciente possa ter, a enfermidade que se reduz a silêncio,
para ressurgir periodicamente, não pode ser outra coisa além de uma perturbação
dinâmica, uma alteração silenciada momentaneamente da capacidade reativa do organismo, um organismo
que quer cumprir a função essencial de todo organismo, a liberação de energia,
seja através da produção de calor de toda a máquina e a exoneração dos
catabólitos combustionados ou como a liberação da energia instinto-emocional no
processo expansivo da sua personalidade, e que nesta primordial função autocurativa e inerente à sua própria
natureza, tenha se hipersensibilizado no estado de susceptibilidade que mantém
um sistema de reflexos condicionados, o que fez Hahnemann dizer que a
enfermidade crônica não se cura sozinha, é preciso romper o círculo vicioso dos
reflexos condicionados organizados em sistema reiterativo.
Com
tudo isso, reafirma-se que a psora, exaltação anormal, hiperérgica da
capacidade reativa do organismo em sua função primordial de repelir do centro
até a periferia, da mente até os envoltórios tudo o que, do exterior ao
interior, atenta contra o equilíbrio homeostático do seu meio interno, desde a
ansiedade até a infecção exógena, é a enfermidade essencial e única do ser
humano, a condição dinâmica de perturbação, que o predispõe para todas as
demais enfermidades e que toda atividade reativa do tipo paroxístico, acessional,
agudo, exonerativo, é a expressão brusca, estalante, da reação psórica
representada como um paradigma biológico, pelo paciente que externaliza a
ansiedade pruriginosa e inquietante da sua mente até a superfície do seu corpo
convertida em prurido.
(Final da tradução do capítulo "La Constitucion morbida" de Tomás Paschero, por Alice Sanchez Cupolillo)