sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Psicossomatismo em Homeopatia

Psicossomatismo em Homeopatia
            Para a homeopatia assim como para o pensamento médico moderno que encara o problema dinâmico da enfermidade, todas as afecções tem um caráter psicossomático, desde que todo o psicológico tem sua conotação corporal e vice-versa. A separação de alma e corpo é inadequada à nova concepção de vida de acordo com o moderno avanço científico (...). A enfermidade deve ser considerada como um comportamento especial do ser vivo, como um fenômeno vital, pleno de sentido, que se realiza através de uma estrutura organizada.
            Desde que Einstein comprovou que a massa de um corpo dotado de um movimento rápido cresce com o aumento da velocidade, estabeleceu-se a identificação de massa e energia, com o que se deu o primeiro passo para unir a mecânica, a eletrodinâmica e a biologia em um só sistema de equações. A imagem do macrocosmo mundo mudou e, como consequência, também mudou a imagem do microcosmo homem.
            Já não se podia estabelecer uma franca distinção entre o material e o imaterial e, portanto, não se podia seguir aplicando em medicina, ao estudo do imaterial, o psíquico, cujo caráter é puramente qualitativo e não-espacial, os mesmos  métodos quantitativos que se aplicavam ao material e corporal. A separação da medicina e da psicologia deveu-se à essa impossibilidade de aplicar à mente os métodos quantitativos que serviram para a exploração mecânica dos processos biológicos, tal como o fizeram brilhantemente a escola experimental com Claudio Bernard à cabeça, há feito que a medicina chegara a saber muito do organismo como máquina biológica, mas muito pouco ou nada do homem.
             Pela índole de sua base experimental, com reações patogenéticas puramente dinâmicas, o homeopata é levado à investigar não a função de um órgão (...) e sim o funcionamento de um ser humano como pessoa, de uma unidade viva que atua como tal em sua adaptação ao meio cosmo-social. Nenhuma semiologia objetiva ou investigação instrumental dos fenômenos psíquicos dará ao homeopata a compreensão dessa essencialidade ou realidade intrínseca, não espacial, e não medicável, como é a mente.
            A única maneira de chegar a essa realidade essencial é mediante o instrumento de nossa própria capacidade de consciência, nossas próprias vivências internas, as que, por empatia e identificação, nos permitem captar as vivências afetivas e níveis de consciência do enfermo. Só assim, pode o homeopata perceber a autenticidade do sintoma e saber com certeza quais são os três ou quatro sintomas realmente característicos de um enfermo que representa essa totalidade essencial. Se é possível chegar a esse centro vital e compreender a íntima personalidade do paciente, não é necessário tomar em conta os sintomas patológicos ou de superfície para prescrever com segurança o similium.
            O médico homeopata deve ter uma clara visão filosófico-científica do problema, e estar realmente convencido de que a enfermidade é um comportamento biológico, que não existem fenômenos patológicos derivados de uma fisiologia distinta em sua natureza da fisiologia normal, como concebeu-se na época mítico-mágica da medicina, na qual acreditava-se que a enfermidade era algo estranho ao organismo, como um gênio maléfico, ideia que ainda prevalece em alguns médico, transferida ao germe ou ao vírus.
Seguem-se usando expressões como a que o indivíduo contraiu uma enfermidade, sem haver incorporado em nosso acervo cultural médico a convicção de que a enfermidade é o mesmo processo vital que ocorre na saúde em seu tramite constante de adaptação e que não é outra coisa senão exaltação fisiológica para restaurar o equilíbrio psíquico e homeostático do indivíduo (...) sendo assim, a enfermidade é um processo curativo que o médico deve ajudar, corrigir ou endereçar, segundo a alteração miasmática da vis medicatrix.
Com esse critério, absolutamente importante no médico moderno, que concebe a enfermidade como um aspecto especial da vida, uma manifestação crítica da atividade do ser humano total no seu processo normal de adaptação, a homeopatia segue como única medicina antropológica, medicina exigida pela crise do organismo atual, que contempla o homem em sua totalidade como ser que cumpre um sentido pessoal de vida e confere um sentido à sua enfermidade.
(...) Não há nenhuma dúvida de que grandes clínicos de todos os tempos tiveram a visão intuitiva de que uma crise alérgica, um ataque de asma, uma diarréia, um eczema, uma úlcera de estômago, uma afecção reumática, etc. eram expressões simbólicas de tendências, desejos ou conflitos entre os impulsos instintivos e a consciência moral, entre o pathos e o ethos de cada ser humano, o qual conferia à perturbação funcional e à estrutura patológica o sentido de uma tentativa de solução, obedecendo ao elemento instinto de autoconservação. (...) Hahnemann chegou a descobrir que a totalidade de acontecimentos (sintomas) tinham a raiz comum de uma perturbação dinâmica da força vital, à qual deu o nome de miasma. Miasma não é uma infecção ou intoxicação, mas sim uma alteração vibratória da energia vital que determina o temperamento, modo de ser ou comportamento biológico do indivíduo e estrutura uma constituição ou forma tissular genericamente biotípica. É nessa perturbação radical onde achamos a essência da enfermidade, por que ali está a Genesis do homem, tanto no seu comportamento biológico quanto na formação caracteriológica com a qual deve enfrentar a vida. É precisamente esse comportamento biológico, que dá os sintomas gerais do corpo, e a personalidade caracteriológica, que proporciona os sintomas mentais, dão de consumo a imagem clínica dessa perturbação radical que leva implícita o sentido do processo mórbido. É esse gênio da enfermidade ao qual o homeopata deve adaptar o gênio de um medicamento que se converte em seu similimum.
(...) A homeopatia pode falar de cura, no sentido de ajudar para que os seres humanos possam realizar livremente seus altos valores transcedentes, quando aplica o similimum, vale dizer, sobrepor a imagem essencial de um medicamento com a imagem da indiocrassia profunda de um paciente. Do contrário será apenas mais uma terapêutica, organicista, paliativa ou supressora de sintomas, mas não corretora do comportamento biológico e da conduta do indivíduo como pessoa, que é o que deve ser curado no homem.
(Tradução e resumo feitos do capítulo "Psicossomatismo em Homeopatia", do livro 'Homeopatia' de Tomás Pablo Paschero, Editorial "El Ateneo", por Alice Sanchez Cupolillo.)