Psicossomatismo
em Homeopatia
Para a homeopatia
assim como para o pensamento médico moderno que encara o problema dinâmico da
enfermidade, todas as afecções tem um caráter psicossomático, desde que todo o
psicológico tem sua conotação corporal e vice-versa. A separação de alma e
corpo é inadequada à nova concepção de vida de acordo com o moderno avanço
científico (...). A enfermidade deve ser considerada como um comportamento especial do ser vivo, como um
fenômeno vital, pleno de sentido, que se realiza através de uma estrutura
organizada.
Desde que Einstein comprovou que a massa de um corpo
dotado de um movimento rápido cresce com o aumento da velocidade,
estabeleceu-se a identificação de massa e energia, com o que se deu o primeiro
passo para unir a mecânica, a eletrodinâmica e a biologia em um só sistema de
equações. A imagem do macrocosmo mundo mudou e, como consequência, também mudou
a imagem do microcosmo homem.
Já não se podia estabelecer uma franca distinção entre o
material e o imaterial e, portanto, não se podia seguir aplicando em medicina,
ao estudo do imaterial, o psíquico, cujo caráter é puramente qualitativo e
não-espacial, os mesmos métodos
quantitativos que se aplicavam ao material e corporal. A separação da medicina
e da psicologia deveu-se à essa impossibilidade de aplicar à mente os métodos
quantitativos que serviram para a exploração mecânica dos processos biológicos,
tal como o fizeram brilhantemente a escola experimental com Claudio Bernard à
cabeça, há feito que a medicina chegara a saber muito do organismo como máquina
biológica, mas muito pouco ou nada do homem.
Pela índole de sua
base experimental, com reações patogenéticas puramente dinâmicas, o homeopata é
levado à investigar não a função de um órgão (...) e sim o funcionamento de um
ser humano como pessoa, de uma unidade viva que atua como tal em sua adaptação
ao meio cosmo-social. Nenhuma semiologia objetiva ou investigação instrumental
dos fenômenos psíquicos dará ao homeopata a compreensão dessa essencialidade ou
realidade intrínseca, não espacial, e não medicável, como é a mente.
A única maneira de chegar a essa realidade essencial é
mediante o instrumento de nossa própria capacidade de consciência, nossas
próprias vivências internas, as que, por empatia e identificação, nos permitem
captar as vivências afetivas e níveis de consciência do enfermo. Só assim, pode
o homeopata perceber a autenticidade do sintoma e saber com certeza quais são
os três ou quatro sintomas realmente característicos de um enfermo que
representa essa totalidade essencial. Se é possível chegar a esse centro vital
e compreender a íntima personalidade do paciente, não é necessário tomar em
conta os sintomas patológicos ou de superfície para prescrever com segurança o similium.
O médico homeopata deve ter uma clara visão filosófico-científica
do problema, e estar realmente convencido de que a enfermidade é um
comportamento biológico, que não existem fenômenos patológicos derivados de uma
fisiologia distinta em sua natureza da fisiologia normal, como concebeu-se na
época mítico-mágica da medicina, na qual acreditava-se que a enfermidade era
algo estranho ao organismo, como um gênio maléfico, ideia que ainda prevalece
em alguns médico, transferida ao germe ou ao vírus.
Seguem-se
usando expressões como a que o indivíduo contraiu uma enfermidade, sem haver
incorporado em nosso acervo cultural médico a convicção de que a enfermidade é
o mesmo processo vital que ocorre na saúde em seu tramite constante de
adaptação e que não é outra coisa senão exaltação fisiológica para restaurar o
equilíbrio psíquico e homeostático do indivíduo (...) sendo assim, a
enfermidade é um processo curativo que o médico deve ajudar, corrigir ou
endereçar, segundo a alteração miasmática da vis medicatrix.
Com
esse critério, absolutamente importante no médico moderno, que concebe a
enfermidade como um aspecto especial da vida, uma manifestação crítica da
atividade do ser humano total no seu processo normal de adaptação, a homeopatia
segue como única medicina antropológica, medicina exigida pela crise do
organismo atual, que contempla o homem em sua totalidade como ser que cumpre um
sentido pessoal de vida e confere um sentido à sua enfermidade.
(...)
Não há nenhuma dúvida de que grandes clínicos de todos os tempos tiveram a
visão intuitiva de que uma crise alérgica, um ataque de asma, uma diarréia, um
eczema, uma úlcera de estômago, uma afecção reumática, etc. eram expressões
simbólicas de tendências, desejos ou conflitos entre os impulsos instintivos e
a consciência moral, entre o pathos e
o ethos de cada ser humano, o qual
conferia à perturbação funcional e à estrutura patológica o sentido de uma
tentativa de solução, obedecendo ao elemento instinto de autoconservação. (...)
Hahnemann chegou a descobrir que a totalidade de acontecimentos (sintomas)
tinham a raiz comum de uma perturbação dinâmica da força vital, à qual deu o
nome de miasma. Miasma não é uma infecção ou intoxicação, mas sim uma alteração
vibratória da energia vital que determina o temperamento, modo de ser ou
comportamento biológico do indivíduo e estrutura uma constituição ou forma
tissular genericamente biotípica. É nessa perturbação radical onde achamos a
essência da enfermidade, por que ali está a Genesis do homem, tanto no seu
comportamento biológico quanto na formação caracteriológica com a qual deve
enfrentar a vida. É precisamente esse comportamento biológico, que dá os
sintomas gerais do corpo, e a personalidade caracteriológica, que proporciona
os sintomas mentais, dão de consumo a imagem clínica dessa perturbação radical
que leva implícita o sentido do processo mórbido. É esse gênio da enfermidade ao
qual o homeopata deve adaptar o gênio de um medicamento que se converte em seu similimum.
(...)
A homeopatia pode falar de cura, no sentido de ajudar para que os seres humanos
possam realizar livremente seus altos valores transcedentes, quando aplica o similimum, vale dizer, sobrepor a imagem
essencial de um medicamento com a imagem da indiocrassia profunda de um
paciente. Do contrário será apenas mais uma terapêutica, organicista, paliativa
ou supressora de sintomas, mas não corretora do comportamento biológico e da
conduta do indivíduo como pessoa, que é o que deve ser curado no homem.
(Tradução e resumo feitos do capítulo "Psicossomatismo em Homeopatia", do livro 'Homeopatia' de Tomás Pablo Paschero, Editorial "El Ateneo", por Alice Sanchez Cupolillo.)